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Entrevista do Embaixador da Polónia
em Luanda, Eugeniusz Rzewuski na Jornal de Angola, dia 08 de Marco 2004
António Kassoma -Jornalista
Embaixador
da Polónia considera Angola uma porta para o seu país investir na região
centro-austral de África
Angola e Polónia abrem nova fase da cooperação
bilateral
António
Kassoma
Numa altura em que a questão da
dívida de Angola para com a Polónia deixou de ser o tema difícil das
conversações entre os dois países, as autoridades polacas advogam uma maior
aproximação entre o empresariado dos dois países. Em entrevista exclusiva
ao “Jornal de Angola”, o representante das autoridades de Varsóvia em
Luanda traz à luz uma ampla perspectiva de
participação da Polónia no desenvolvimento económico de Angola, como consequência natural da maior
aproximação política bilateral. O ponto mais alto desta aproximação foi a visita àquele país do Presidente
da República, José Eduardo dos Santos, durante a qual apelou ao
empresariado daquele país a investir em Angola, por forma a ajudar o país a
sair da difícil situação económica provocada pela guerra. Siga o substrato
da conversa, que durou pouco mais de uma hora.
Jornal de Angola – Senhor embaixador. Chega nos próximos dias uma
comitiva governamental e empresarial da Polónia. Qual o significado desta visita, numa altura em que a questão
da dívida já não parece ocupar lugar de destaque?
Eugeniusz Rzewuski – A visita a que
fez referência estará em Angola nos dias nove e dez próximos, e será chefiada pelo ministro dos Negócios
estrangeiros da Polónia, Wlodzimierz Cimoszewicz. Vem acompanhado por entidades
do governo polaco titulares de ministérios com carácter económico, dentre
os quais o vice ministro das finanças e o presidente da Agência Nacional de
Informação e Investimentos Estrangeiros – congénere da ANIP angolana. Fazem ainda parte da equipa visitante,
vinte empresários, executivos e proprietários das maiores empresas polacas.
A comitiva deverá, em linhas gerais, abrir uma nova fase da cooperação
bilateral, facilitada pela nova situação de paz em Angola e pela franca
progressão que se tem verificado na Polónia nos últimos quinze anos. São
ainda favoráveis à uma maior aproximação, as mudanças que se têm operado na
economia mundial, aonde África se apresenta como um mercado bastante
aliciante. É o caso do nosso país, que, com a sua entrada na União Europeia
em princípio de Maio, terá ainda mais vias e mais motivos para estabelecer
parcerias com países prometedores como é o caso de Angola.
J A – Já existem passos
concretos no sentido da aproximação e cooperação bilateral?
E R – Sim. A cooperação entre os
nossos países sempre foi boa, mas está claro para ambos estados que pode
ser bastante melhorada, visando benefícios mútuos. Com esta convicção
efectuou-se em Setembro do ano passado a visita da S.E. Presidente de
Angola, Sr José Eduardo dos Santos.
Na altura, os dois presidentes
manifestaram grande vontade política de reforçar a cooperação económica e
de resolver o problema da dívida. Realizaram-se vários encontros ao nível
ministerial – durante a visita presidencial e logo depois. Em Novembro foi
assinado o acordo sobre a dívida. Passados três meses vem agora a Luanda o
nosso ministro dos negócios estrangeiros com a delegação económica
empresarial. Nesta ocasião vai se
realizar um ‘Forum Empresarial Angola-Polónia’ organizado pela Embaixada
polaca em Luanda em cooperação com a Câmara Polaca de Economia e a Câmara
de Comércio e Indústria de Angola, assim como com apoio da ANIP, da AIA, de
ACOMIL.
Durante este encontro os empresários
polacos tomarão contacto com a realidade angolana e poderão inteirar-se das
oportunidades, do quadro legal e institucional no que respeita a
investimento estrangeiro e ao comércio e ficarão a saber das facilidades
que o Estado Angolano oferece para os investidores privados (nacionais e
estrangeiros) ao abrigo da Lei do Investimento Privado e as facilidades de
estabelecimentos de parcerias e formação de empresas com o apoio garantido
por instituições como a Agência Nacional de Investimento Privado (ANIP) e o
GUE, Guiché Único de Empresas.
J A – Mesmo não sendo uma
questão litigiosa, sabe-se que o dossier da dívida de Angola para com a
Polónia (cerca de 153 milhões de dólares) ainda não está encerrado. Que
influência poderá exercer sobre essa nova fase de cooperação, com a
possível entrada em cena de várias empresas Polacas?
E R – Acredito que só terá uma
influência positiva, encorajadora. Digo isso porque, as intenções de investimento polaco em
Angola são de particulares (que não têm participação na questão da
dívida),. Por outro lado, o facto de Angola estar a cumprir as suas
obrigações estipuladas no Acordo reforça a credibilidade, a imagem de
confiança em Angola – sentimentos que os empresários precisam de nutrir e
assumir.
A questão da dívida de Angola já não
é um tema de negociações mas um tema de execução. Há um acordo entre as
partes, que está nesse momento a ser cumprido. Estando ultrapassado o
assunto da dívida, o passo a seguir é o reforço da cooperação, que deverá
focar sobre aspectos políticos, económicos, e culturais, tendo em conta o
novo contexto dos dois países e o contexto global.
J A – Pode nos falar dos
termos do acordo celebrado sobre a questão da dívida?
E R –Ficou acordado que Angola
pagará quarenta por cento da dívida no espaço de três anos ( até 2006 ) e a Polónia perdoaria os restantes
sessenta por cento, o que corresponderia a qualquer coisa como 92 milhões
de dólares. Angola já está a cumprir a sua parte do acordo e esperamos que
depois do seu cumprimento total possam ser abertas novas linhas de crédito
para Angola, o que deve perspectivar-se em função dos projectos concretos,
sem necessariamente esperarmos os tais três anos.
J A – Voltando à intenções de
investimento dos empresariado polaco, quais os ramos económicos em que eles
já manifestaram interesse em investir?
E R – O reforço da cooperação económica pode e vai efectuar-se
através de modalidades diversas: comércio, parcerias com investimento,
participação, atraves de concursos públicos, na execução de projectos
financiados por partes terceiras, por exemplo instituições e agências
internacionais. Por isso não se deve falar somente de investimentos. Angola
importa muitos bens e serviços e nos pretendemos concorrer também neste
mercado tendo em conta que a tecnologia moderna investida nas nossas
fábricas, a mão de obra altamente qualificada tornam os nossos productos
competitivos.
Voltando à sua pergunta: o
empresariado polaco mostrou-se particularmente seduzido pelo que poderíamos
considerar complexo marítimo. Isto deve-se à feliz coincidência entre os
abundantes recursos de Angola e a nossa larga experiência no ramo. Há
intenções de investimento em actividades como as pescas, o transporte
marítimo e a construção naval. Em qualquer dessas áreas prevê-se o emprego
de força de trabalho local, bem como a formação de quadros nacionais,
sobretudo na área de construção e reparação naval. Essa actuação visa
harmonizar os nossos investimentos com a filosofia do governo de Angola,
que é a nossa também, e que recomenda ter de se fazer acompanhar o
investimento com a componente de formação.
J A – Já existem contratos
firmados nas áreas que mencionou ou em outras eventuais áreas que venham a
suscitar o interesse de empresários do seu país.
E R – Como disse, estamos ainda numa
fase vestibular do reforço da cooperação. Há contratos que se encontram em
estado avançado de negociações, já foram abordados os seus aspectos
técnicos e as modalidades de materialização, mas ainda não têm sólides
suficiente para que os possamos divulgar.
J A – Os investimentos
polacos vão limitar-se à ramos ligados ao mar?
E R – Não. Há outras áreas em que a
Polónia está interessada em responder ao convite de investimento e
cooperação feitos pelo governo de Angola. Poderemos, por exemplo,
participar na extracção de mineiros, nos reconstrução dos caminhos de ferro
e na área de construção e reparação de estradas, ramo em que também estamos
em condições de fornecer equipamentos pesados. A Polónia vende pelo mundo
fora e pode fornecer a Angola vários tipos de tubos, válvulas, sistemas de
tratamento de água, sistemas electroenergéticos, aparelhos
electrodomésticos, mobílias.
Há ainda áreas em que a Polónia tem tradicionalmente fortes laços de
cooperação com Angola, como na área de formação de quadros. Mais de
duzentos angolanos terminaram com sucesso a formação superior na Polónia.
Há neste momento por volta de 15 Angolanos que estudam no nosso paísEste
aspecto de cooperação que deverá ser relançado em função das prioridades
angolanas de formação de quadros superiores, que são, como é bem sabido,
nos domínios de tecnologia e de medicina.
J A – Como será a vossa
participação no ramo das pescas? Terá uma configuração parecida com a
cooperação da União Europeia neste sector?
E R – Queremos operar nos moldes em
que Angola achar mais vantajoso para si. Daremos prioridade às parcerias em
detrimento da simples captura de pescado. Pensamos que a parceria é uma
forma mais segura e mais conciliadora de cooperação. Nesta linha de ideias,
estamos advogar a formação de empresas mistas, o que julgamos ter a virtude
de gerar empregos para muitos angolanos. Há ainda a questão dos transportes
marítimos, que são um bom ramo para investimentos. Apesar de ainda não
existirem muitos passos nesse sentido, há expectativa de se negociarem
empreendimentos nesse ramo durante a estada em Angola desse grupo de
empresários, alguns dos quais operam nesse ramo. Está igualmente em aberto
a possibilidade de fornecermos à Angola embarcações destinadas á
fiscalização da actividade pesqueira.
J A – Toda essa gama de
cooperação será negociada directamente pela embaixada?
E R – Não. O papel da embaixada e do
estado polaco será catalisar a troca de informações, criando condições
propícias à materialização de parcerias. A efectivação das mesmas estará a cargo do empresariado dos dois países,
razão pela qual afigura-se de grande importância o fórum empresarial que se
vai realizar no dia nove e que vai continuar no dia dez de Março em forma
de encontros directos entre os empresários polacos e angolanos.
Com o fim de facilitar actividade
dos empresários polacos no âmbito da cooperação perspectivada, poderá haver acordos entre os dois
países no sentido de se evitar a dupla tributação, e poderão ser concedidas
pelo governo de Varsóvia garantias adicionais em forma de seguros de
exportação aos polacos que investirem em Angola.
J A – Referiu fazerem parte
da comitiva vinte empresários polacos; que ramos de actividade económica
representam eles?
E R – São executivos e proprietários
de empresas relacionadas com estaleiros navais, transportes navais,
fábricas de autocarros, tractores e rebocadores. Há ainda representantes de
indústrias mineiras, indústrias químicas (principalmente de fármaceúticos
os e fertilizantes), bem como empresas de construção civil. Estará presente
também a indústria dos productos alimentares. Parece-me pertinente fazer
saber à comunidade angolana, que pelo facto de a visita ser muito curta,
uma vez que se enquadra num périplo por quatro países africanos (Nigéria,
Angola, Namíbia e Quénia); muitos desses empresários regressarão brevemente
à Angola para um maior aprofundamento dos seus conhecimentos do terreno,
tendo em vista o estabelecimento de parcerias. Aliás, alguns deles já cá
estão há algum tempo. Perante um quadro como o que se está a formar, é
previsível que nos próximos tempos sejam criadasnovas empresas mistas,
reunindo factores de produção dos dois países. A Polangol (empresa de
direito angolano de construção civil, com forte participação polaca) é uma
das provas vivas de que tais parcerias são bastante salutares. Haverá
certamente uma presençã polaca através das empresas angolanas ou
estrangeiras com direito de representação.
J A – Uma das companhias
polacas que está em Angola há muito tempo é, certamente, a fábrica de
camiões “STAR”, há alguma hipótese de relançar a sua actividade aqui?
E R – Com certeza. A nossa intenção
é fazer com que a marca “STAR” volte ao convívio dos angolanos. Isso seria
também uma forma de expandirmos esse produto por toda a região, uma vez que
Angola ocupa um lugar privilegiado na zona. Ela poderá ser uma das estrelas
que iluminará a implantação de investidores polacos na região, muito embora
o seu nome não signifique um astro – como significaria na língua inglesa-,
mas as quatro primeiras letras do nome da localidade em que a sua fábrica
está instalada: Starachowice.
J A – É qual é a expressão de
produtos angolanos na Polónia?
E R – Ela é praticamente nula. Com a
cooperação que agora se abre, pretendemos de atingir o melhor balanço nas
nossas trocas comerciaís.
ue, Poderemos p. ex. importar minerais de Angola, como o
granito, o mármore, para alem da
eventual cooperação no ramos dos petróleos. Poderemos importar o pescado
que eventualmente será capturado por nossas empresas mistas.
O volume das exportações de Polónia
para Angola também é muito além das
potencialidades: no ano passado estava no nível de 2 miliões de dólares
UEU.
Espero que se multiplique pelo menos
por dez ou vinte.
J A – Deixa transparecer no
seu discurso, que a aproximação de que fala é essencialmente económica...
E R – É verdade que a componente
económica da cooperação tem grande importância, mas não é a única que
merecerá a nossa atenção. Queremos também dar também um novo alento à
cooperação no campo da cultura. Queremos
que a Polónia seja conhecida seja conhecida em Angola, e reciprocamente,
através dos filmes, música, literatura. Assim, vamos a aproximar não só os dois estados, mas também os
dois povos. Vamos renovar os nossos acordos de educação, cultura e ciência.
J A – Angola foi um dos
países escolhidos para esta digressão da comitiva polaca por África. Que
importância tem o nosso país nas estratégias de cooperação da Polónia?
E R – Como
tem se tornado cada vez mais evidente, com o envolvimento pessoal dos dois
chefes de estado, Angola é dos países mais importantes nesta região, do
ponto de vista da política externa polaca. Para nós, mais do que um bom
mercado e cheio de potencialidades, Angola é também uma porta de entrada
para esta região de África. A sua importância não é apenas económica, mas
também um país com grande importância e influência política na sub-região
centro e austral de África. Aliás, importância de Angola transcende a
região e o continente, tendo mesmo um papel importante na cena mundial. Nesta fase de debates sobre o sistema de
segurança, sobre o funcionamento do Conselho de Segurança e o papel da ONU
toda, parece nos muito importante consultar Angola. A próxima entrada da Polónia na União
Europeia também é um factor de vermos em conjunto como é que preservar as
nossas excelentes tradições bilaterais acrescentando a elas a nossa futura
contribuição que vamos dar a desenvolvimento em África sob a bandeira da
União Europeia.
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